Você sabe o que é virtual?

(Artigo publicado na Revista da FACOM/FAAP, 1999)

Jurema L. F. Sampaio

Recentemente a revista Época lançou a pergunta "Você é digital?" em matéria de capa. Se você não leu, a matéria questionava, mesmo que superficialmente, o que são todas as mudanças quem vem ocorrendo na sociedade com a presença da tecnologia nas várias áreas da nossa vida e em todas as áreas de atuação profissional.

Geralmente, quando pensa-se em tecnologia, é comum associar a palavra à imagem dos computadores, mas tecnologia não é só computador. Desde que a engenharia eletrônica evoluiu à micro-eletrônica, ou desde que inventou-se o microchip, a tecnologia passou a estar presente em quase tudo. Fornos de microondas, lavadoras automáticas, todo tipo de aparelho que possua um timer, automóveis "inteligentes", marca-passos e todo tipo de exames não-invasivos na área de saúde, enfim há tantos exemplos que é até meio difícil imaginar a vida moderna sem tecnologia. Então, ser digital não é só saber enviar um e-mail ou usar um editor de texto corretamente. É saber programar seu videocassete para gravar seu programa preferido na sua ausência, é usar um timer para desligar a televisão depois que você dorme, é fazer uso de pagers, telefones celulares e outras formas de comunicação modernas correta e fluentemente. Ser digital é, principalmente, entender e assimilar a evolução da tecnologia, quando ela começa e como influencia na sua vida. Conviver com tecnologia não faz, necessariamente, com que você a assimile. As mudanças nos últimos anos tem sido tão rápidas que temos tido problemas em acompanhar essa evolução. Tomemos como exemplo o videocassete. Você sabe como se processa o armazenamento de imagens em uma fita? Pois bem, todos somos hábeis o suficiente para introduzir uma fita num aparelho de vídeo e assistir a seu conteúdo, mas quanto de nós são capazes de explicar como esse processo se dá? Isso é um processo eletrônico. Não pretendo convencer ninguém a se tornar um engenheiro eletrônico, mas você entendia bem o processo de como, ao apertar uma tecla da sua máquina de escrever a letra se imprimia no papel, não? E por que? Porque era um processo mecânico. Você via a haste se levantar e tocar o papel, tendo a fita com a tinta entre ambos, fazendo com que houvesse a impressão do relevo da ponta da haste no papel, ou seja, a letrinha que você apertou no teclado. Os processos mecânicos são mais simples de entender para nós, porque vemos as coisas acontecerem na nossa frente. Nos processos eletrônicos as "coisas" acontecem em um universo virtual.

Em geral se diz que virtual é o contrário de real, o que complica um pouco o entendimento de sua essência. Virtual não é o contrário de real! O contrário de real é irreal e virtual não é irreal. Virtual é o contrário de físico. Os processos mecânicos se dão em uma dimensão física e os eletrônicos ocorrem num universo virtual. Ao entendermos isso se torna mais fácil compreender o "resto".

Pensar em universo virtual como irreal pode significar que ele não existe. O que não é verdade. Virtualidade é uma propriedade real, mas não física. Uma imagem na tela de um computador é virtual por não ter materialidade, mas ela existe. A digitalização de um texto não faz com que ele desapareça ou deixe de existir, ele apenas passa a existir numa outra dimensão, o universo virtual. Sem entrar em méritos da física ou em campo das religiões, virtual é tudo que não tem materialidade, mas existe. A eletricidade é virtual e todos os "deuses" de todas as crenças também o são.

E o que é esse universo virtual? Partindo do entendimento da virtualidade como contrário do físico, material, podemos especular sobre o surgimento dessa nossa civilização pós-moderna-virtual na metade do século IXX (1837), quando foi inventado o telégrafo, por Samuel Morse. A transformação de letras (símbolos gráficos) em sinais sonoros pode caracterizar a primeira forma de virtualização da comunicação. Antes era preciso a presença física de portadores das notícias para que eles fossem comunicadas. Mesmo as experiências com sinalização do dito "telégrafo ótico" necessitavam de uma presença física para compreensão e multiplicação da informação. Conta-se que nos tempos de Alexandre Magno as mensagens da Grécia chegavam à Índia em apenas cinco dias. Uma proeza para a época. Façanha memorável foi a do soldado Felípedes, no ano 490 A.C.. Ele foi encarregado de anunciar a vitória dos gregos sobre os persas e teria corrido 37 quilômetros, desde o campo de batalha de Maratona até a cidade de Atenas. O esforço heróico foi tanto, que ele deu o recado e caiu morto. Utilizando o cavalo e depois as carruagens, o homem conseguiu mais velocidade na transmissão das notícias. Um mensageiro chinês, no século XIII, trocando animais a cada etapa de 40 a 50 quilômetros, chegava a percorrer 400 quilômetros num dia. Este método de carruagens satisfez até o século XVIII. É só a partir da invenção do telégrafo que se passa a valorizar a informação em si e não mais o seu transporte. 

Com o surgimento dos computadores na década de 50 e, mais ainda, com a micro-informática na década de 70 desse nosso século, começam a se desenvolver as possibilidades comunicacionais desse universo virtual, até chegar ao que temos hoje em dia, quando comunicar-se com qualquer parte no mundo em tempo real é possível e relativamente comum.

Incorporar as novas tecnologias da comunicação ao cotidiano é quase que obrigatório. Não se concebe um profissional atuante nos dias de hoje que não saiba utilizar o e-mail como forma de comunicação, mas pouco valor se dá a se pensar em como essas "coisas" fazem parte da vida da gente sem que a gente nem se dê conta. As mudanças socioculturais estão ocorrendo de forma muito mais rápida que no passado e isso é conseqüência direta da virtualização e da tecnologia, que possibilita um acesso mais rápido e democrático, via universo virtual, a qualquer pessoa que se mostre interessada em adquirir informação. O que é uma imensa novidade hoje, em pouco tempo se torna obsoleto frente a uma nova tecnologia, cada vez mais arrojada. Se considerarmos o tempo decorrido desde as primeiras invenções no campo da comunicação, veremos que as gerações mais idosas de hoje ainda se lembram de quando as telecomunicações engatinhavam e sequer se sonhava com os recursos atualmente à disposição. A própria televisão, tão comum em nossos dias, é lembrada pela geração que tem, hoje em dia, 30 e poucos anos, quando ainda era em preto-e-branco. 

A resistência demonstrada por algumas pessoas em assimilar Novas Tecnologias pode ser explicada pelo medo do desconhecido apenas. Quem não se lembra, ao adquirir o seu primeiro microondas, do cuidado com que o tratava, receio até, e, principalmente das especulações para saber o que "podia" e o que "não podia" fazer com ele? Em 1876, o escocês Alexander Graham Bell inventou o telefone mas por um bom tempo as pessoas demoraram a "acreditar" nisso. Um jornal de Boston da época ilustrava muito bem esse quadro com uma nota policial: 

" Um homem de cerca de 46 anos de idade, dizendo chamar-se Joshua Coppersmith, foi preso em Nova York por tentar extorquir dinheiro a várias pessoas ignorantes e supersticiosas, exibindo um aparelho, que segundo ele diz, poderá transmitir a voz humana a qualquer distância, através de fios metálicos, de forma que ela será ouvida por qualquer pessoa na outra extremidade da linha. Ele chama o aparelho de "telefone", com a evidente finalidade de imitar a palavra "telégrafo" e ganhar a confiança dos que sabem do sucesso deste último aparelho, sem conhecerem contudo, os princípios em que se baseia. As pessoas mais esclarecidas sabem que é impossível transmitir a voz humana sobre fios, conforme pode ser feito com pontos e traços do código Morse. E, mesmo que fosse possível tal feito do modo indicado, a coisa não teria o mínimo valor prático". 

Parece familiar? Quem ainda não se questionou quanto a real utilidade da Internet? O ciberespaço já é uma realidade na vida de muitas pessoas e as relações virtuais estão a cada dia mais populares. Isso faz pensar em duas questões principais: Será o fim das relações ditas "reais"? E ainda: Como e em que "regras" se baseiam essas relações?

Quanto a primeira questão, vários estudos estão sendo feitos, mas o que tudo indica é que, sendo as tecnologias digitais de comunicação um meio de que poderia ser classificado, segundo a teoria de McLuhan, como retribalizante, isso é pouco provável de acontecer. No entanto, as regras de convivência que essa nova forma de se relacionar necessita se tornam uma questão essencialmente ética. As fronteiras físicas não existem dentro do ciberespaço, portanto não se pode avaliar ou mesmo basear as normas em leis já existentes para regulamentação de atividades físicas. Por outro lado, um "crime" ocorrido dentro do universo virtual ainda tem que ser "trazido" para o universo físico para ser elucidado e punido. O que se pode concluir, portanto, é que: é a ética que rege as relações virtuais, no sentido de: "o direito de um termina aonde inicia o do outro". 

As questões de ordem ética em Novas Tecnologias são, de fato, o principal ponto a ser pensado. Tanto na comunicação, como em qualquer área de conhecimento, as possibilidades de evolução são quase infinitas e ainda desconhecidas, mas, com o que já se tem hoje em termos de realidade, faz necessária a reflexão sobre o tema. O profissional do "futuro" deve, antes de tudo, conhecer e, sobretudo, assimilar, valores éticos de comportamento e conduta desse universo virtual para melhor "se entender" e desfrutar das novas tecnologias que já existem e que, com certeza, surgirão. 

Embora seja verdade a afirmativa de Elbert Hubbard, consultor norte americano, que disse: "A máquina pode substituir 100 pessoas comuns, nenhuma máquina pode substituir uma pessoa criativa", esta mesma mente criativa tem que ser adaptada a criar dentro de uma nova realidade, ou corre o risco de ser substituída, sim. Não por uma máquina, claro, mas por uma outra mente, igualmente criativa, mas habilitada a criar e desenvolver suas idéias dentro dessa nova realidade: o mundo virtual.

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