Textos em mídia digital
Jurema L. F. Sampaio
| Desde que surgiram os
computadores, a imagem destes está sempre relacionada à
academia, estudos e à necessidade de se estudar muito. Seus usuários,
os informatas, seriam aquelas figuras com óculos grossos, pele
comprometida por erupções e pouca capacidade de se relacionar
com pessoas, em síntese: os nerds.
É inegável que a área técnica é a responsável pelo desenvolvimento das máquinas e das possibilidades que elas trazem, mas também é inegável que, as redes de computadores, mesmo tendo sido desenvolvidas por pessoas que supostamente teriam dificuldades em se comunicar, se tornaram veículos de comunicação. Não sei se por isso apenas, mas creio que também por isso. Essas pessoas que teriam essa dificuldade encontraram na comunicação eletrônica uma forma de expressar-se onde estariam "protegidas' de suas inseguranças pessoais e, assim, poderiam "soltar-se" mais, revelando suas opiniões e conhecimentos sem a preocupação com aparência ou em serem aceitos por um grupo presencial. Por outro lado, o desenvolvimento de redes de comunicação eletrônica, encantou a área acadêmica pelas possibilidades de troca de informações entre centros de pesquisa, de modo muito mais rápido do que era feito até então. E isso, sem dúvidas, contribuiu mais ainda para o desenvolvimentos de pesquisas. Gostaria de notar um detalhe. Tanto a uma área, quanto a outra, a preocupação com o conhecimento em si sempre foi a primeira causa de interesse. Transmitir e ter acesso aos conhecimentos era o mais importante independente de qualquer outro fator. Concordo com isso e admito que, no fundo, o mais importante mesmo é isso, o conhecimento poder ser difundido o mais amplamente possível, não importando coisas como aparência física de quem os detém, no caso do perfil caricata do informata, ou forma como este conhecimento é apresentado, caso dos acadêmicos. Mas a "coisa" evoluiu (ainda bem!) e atingiu a todos. Sua característica de comunicação, no entanto, não pode ser esquecida. E é nesse aspecto que sinto uma necessidade grande desenvolvimento, atualmente. Explicando: Infromatas sabem como lidar com a máquina e acadêmicos sabem como lidar com a informação mas me parece quem ambas as áreas não estão sabendo lidar com a comunicação! Na comunicação, fatores outros diversos são necessários para que a mesma se processe. Baseado nos princípios básicos da comunicação, se meu receptor não decodifica minha mensagem, não há comunicação, certo? E na comunicação eletrônica, basicamente formada por texto, não é diferente. Inicialmente, a troca de informações entre adeptos das redes eletrônicas de comunicação, se processava somente por texto (os jurássicos tempos de BBSs comprovam isso), até mesmo por não existência de uma interface gráfica que possibilitasse outra forma de comunicação. Mas essa interface hoje existe. O desenvolvimento tecnológico está ai, possibilitando os multimeios comunicacionais. Com esse desenvolvimento e com essas novas possibilidades, novas linguagens são incorporadas ao "texto" somente, trazendo com isso, a necessidade de repensarmos a forma de redação usada para esse fim: mídia eletrônico. Não creio numa "revolução redacional" completa, mas numa adaptação ao veículo. A redação publicitária é diferente da redação acadêmica. Não se redige da mesma forma para TV e rádio, não é verdade? Portanto, como se redige para midia eletrônico? Vamos às características do meio: tem imagem, mas não é TV, pode ter filme, mas não é cinema, tem som mas não é rádio, tem texto, mas não é livro. O que é então? É multimídia. O que quer dizer isso? Quer dizer que é, citando o grupo musical Titãs, "Tudo, ao mesmo tempo, agora." Essa frase, poética, define bem com o que estamos lidando. Lidamos com um veículo de comunicação que tem imagem, som, texto, mas principalmente hipertexto. O que é hipertexto? Hipertexto é, tecnicamente um conjunto de textos, ligagos por "links", que possibilitam a passagem de um conteúdo ao outro pelo simples clique do mouse. Ou, como diria Pierre Levy:1 "o hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões". Segundo Heim, "o hipertexto é um modo de interagir com textos e não só uma ferramenta, como os processadores de textos" 2. Por esta característica, o leitor interliga informações intuitivamente, associativamente, baseado em seu repertório pessoal. Landow3, diz ainda, que "o hipertexto põe em cheque: seqüências fixadas, começo e fim definidos, uma estória de certa magnitude definida e a concepção de unidade e todo associada a todos esses conceitos". Os links seriam esses nós de que fala Lévy, que propiciam essa interação com o texto. Com essas definições fica fácil entender a principal característica do hipertexto: ele é dinâmico em essência. Sendo dinâmico, e tendo a possibilidade real de ser acompanhado de imagem e som, o hipertexto deve se pensado como uma obra aberta, no sentido de permitir a participação ativa do leitor no seu desenvolvimento. Como desenvolver, então, um texto sem a estrutura "início>meio>fim" tradicionalmente usada para a redação? Não se trata disso. O hipertexto "possibilita" as conexões, mas não as obriga. Como? Um exemplo, bem simples, de uso de hipertexto, como forma ilustrativa, seria uma receita culinária. Tradicionalmente seria escrita da seguinte forma: "Numa panela grande, coloque o óleo, as cebolas e deixe refogar, diferentemente de fritar ou cozinhar, até ficarem douradas e macias, sem as deixar queimar. Para tanto, use fogo baixo e mecha durante o processo". Exemplo de uso de hipertexto: "Refogue as cebolas no óleo, sem queimar". Onde as explicações sobre como "refogar" e "sem queimar", viriam sob forma de links, acessáveis com o clique do mouse, por quem queira, ou necessite, maiores esclarecimentos sobre o que é o verbo "refogar" e como "não deixar as mesmas queimarem-se" neste processo. Os textos desses dois links seriam sintético, com a finalidade explícita de expandir a informação. Ao se clicar em "refogar", poderia ter-se um texto simplesmente explicando o que é o verbo refogar, e, no máximo, sua diferenciação de outros verbos usados na culinária, como fritar, cozer, etc. Pois a intenção é a de esclarecer um significado específico de um termo, diferente de outros semelhantes, dentro de uma mesma temática. No link propiciado por "sem queimar", redigir algo como: Para evitar-se a queima das cebolas durante o processo de "refogamento", deve-se manter o fogo baixo e mexer sempre o conteúdo da panela até que as mesmas se mostrem ligeiramente transparentes, amareladas mas ainda mantenham consistência, mostra um texto um tanto diferente, que teria a função de explicar um processo mecânico específico. Por que usei um exemplo aparentemente tão "bobo"? Porque creio que este exemplo ilustra bem o que quero ressaltar. Redigir para midia eletrônica não é uma tarefa tão simples quanto parece. Ao redigir qualquer coisa, tradicionalmente falando, para ser impressa, teremos dois caminhos a seguir, que escolhemos antes mesmo da redação: estamos redigindo para leigos ou para conhecedores do assunto? Redigir para leigos difere, já na abordagem, de redigir para conhecedores. Quando redigimos para leigos, há a necessidade implícita de esclarecer amiúde termos e processos relatados ou descritos ao longo do contexto. No caso dos conhecedores, parte-se do pre-suposto de que quem estará lendo já conhece parte do conteúdo. É isso torna um texto mais ou menos "denso" no sentido de níveis de informação. Nesse sentido, também, selecionamos palavras e expressões usadas na composição de nosso texto. Não é segredo que um texto bem redigido cumpre essas etapas e propostas. O que acontece, com uma frequência curiosamente grande e, a meu ver, estranha é que, em mídia eletrônico parece que as pessoas ainda não se deram conta das "armas" para conseguir seus objetivos. Fica clara a diferença entre textos escritos por "técnicos" e "acadêmicos". Os "técnicos" tendem a uma síntese contextual e conceitual tamanha que muitas vezes inviabilizam a compreensão de sua proposta e, consequentemente, comprometem a comunicação. Os "acadêmicos", por seu lado, são dados a uma prolixia detalhadora que muitas vezes torna cansativa a leitura, mesmo aos "iniciados". Resumindo, cada um escreve para seus iguais. Num claro descaso com as características da mídia eletrônica que vem sendo, no mínimo sub-utilizada. Por que isso acontece? Como já disse antes, em geral escrevemos para nossos iguais, ou seja, para pessoas que estejam em um nível informacional igual ou semelhante ao nosso. Isso funciona maravilhosamente bem no papel. Em textos impressos, livros, papers, manuais, etc. Temos que ser compreendidos, portanto, temos que redigir com essa preocupação. Só que textos impressos tem começo, meio e fim, e a própria estruturação de um livro, por exemplo, em capítulos já cumpre essa "tarefa". O mesmo acontece com a redação publicitária trabicional, usa-se técnicas de síntese para transmitir, comunicar a mensagem desejada e pre-dispor o receptor ao consumo do que se anuncia. O que surprende é que, mesmo profissionais de comunicação, ao redigirem para web ou multimídia of line (CD ROM) parecem esquecer-se disso. Somado a todas as necessidades comunicacionais tem-se as características próprias do veículo: o computador. Computadores são máquinas, novidade essa afirmativa, não é? Pois é, mas parece que tem gente que se esquece disso ao escrever para multimídia. Computadores, monitores em especial, são fontes emissoras de luz. Diferentemente do papel, que reflete a luz, propiciando a leitura, o monitor de um computador, a tela, como é conhecido popularmente, emite luz. Os bits, do sistema binário adotado pelos computadores (a linguagem das máquinas), literalmente acendem-se e apagam-se por orientação de comandos específicos "desenhando" na tela do computador as letras que, juntas, formam os textos. Isso não acontece com o papel e só isso já seria motivo suficiente para repensar a forma de redigir para um ambiente eletrônico de leitura. Referências: 1 - LÉVY, P. As Tecnologias da Inteligência. Rio de Janeiro Editora 34, 1993. 2 - HEIM, M. The Metaphysies of Virtual Reality. Oxford Press, 1993 cap.3 Citado por CORREIA, Cláudia e ANDRADE, Heloísa em NOÇÕES BÁSICAS DE HIPERTEXTO in: http://www.facom.ufba.br/hipertexto/nbasicas.html 3 - LANDOW, G. P.; Hypertext. The Convergence of Comtemporay Critical Theory and Tecnology; The John Hopkins Universty Press, Baltimore and London, 1992. IDEM.
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