Relato de Experiência com EaD - Agosto de 2001
Jurema L. F. Sampaio
OBS:
Este texto me proporcionou uma experiência interessante. Me foi pedido
por uma pessoa que estava organizando um curso para acontecer à distância.
Quando entreguei o texto, a pessoa disse que "não concordava
com a minha experiência" (!), porque o curso que ela estava
organizando ia acontecer "exatamente assim, e será ótimo"
(livros seriam enviados aos inscritos e chats, com HORA MARCADA, seriam feitos
"para tirar dúvidas"...). Fiquei realmente grata ao receber
a notícia de que meu texto não seria publicado! Seria delicado
ter meu nome e trabalho associados à proposta tão imbecil! :-)
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Meu nome é Jurema Sampaio, sou professora universitária, designer, webdesigner, pesquisadora em EaD, coordenadora de projetos e artista plástica. Enfim, sou, eu mesma, multimidiática! :-) Primeiramente, ao iniciar o relato das minhas experiências com EaD, gostaria de dividir o assunto em duas partes. Minha experiência como aluna em EaD e minha experiência como professora em EaD. Meu interesse por EaD vem de uma quase fascinação pelo conhecimento e pela possibilidade de ampliação de horizontes que ele trás. Já fui aluna de cursos a distância de outras modalidades de EaD que não a mediada por computadores. Na década de 70 fiz diversos cursos (geralmente ligados a arte e artesanato) por correspondência e mesmo os mini-cursos publicados em revistas, a meu ver, podem ser chamados de EaD. As correspondências com PenPall-Friends, iniciadas com o curso de inglês da infância e adolescência me deixaram acostumadas com o processo de validação de informação não presencial. Como aluna de EaD mediada por computador, iniciei minha "carreira" com um aprendizado de HTML, no início de 1996. Me interessei pela Internet desde o início, mas até então era somente usuária. O que me motivou a ser uma 'aluna à distância' era a vontade de publicar conteúdo na Web somada a dificuldade de encontrar, na cidade que moro, um curso de "como fazer" isso, na época. O meu início em EaD vem muito do auto-didatismo, dessa vontade de aprender. Vejo sempre o aluno a distância como um aluno já motivado e interessado no aprendizado. Mas ao mesmo tempo que isso ajuda, atrapalha um pouco. Essa autonomia do auto-didatismo precisa ser orientada. Se só ficarmos no "quando eu quero e posso" pode até ser interessante como indivíduos, mas para grupos não funciona exatamente da mesma forma. Vejo na EaD, principalmente, a quebra de vínculos tempo/espaço e, por isso mesmo, não entendo muitas vezes a imposição de horários para atividades, como em alguns cursos que participei. É certo que um chat, que é uma atividade grupal e que exige sincronia deve ter um horário marcado e cumprido, os alunos se agendam para isto. Mas não é só de chat que vive a EaD. Fórum e listas de discussão podem ser ferramentas muito úteis e não necessariamente síncronas. De um modo em geral tenho críticas a maioria dos cursos que encaram a EaD como um broadcasting de informação e, pior ainda, necessariamente síncrona. Concordo que TAMBÉM pode-se fazer EaD desta forma, só creio que esta é a pior delas. A que menos resultados oferece. Por que? Vejamos, se tenho disponibilidade de tempo num horário específico e se já tenho um "caminho" a seguir (muitos "cursos" colocados na Web são somente apostilas, mesmo que bem escritas, onde o aluno acompanha um programa de conteúdo e atividades previamente elaborado e nada interativo), por que motivo não faria um curso presencial? Podem dizer: - Mas esse material pode estar a distância física que impossibilita o acesso. Respondo: O.k., tem o correio. Enfim, o correio já havia "resolvido' o problema somente da distância física. As tecnologias digitais de informação permitem uma nova forma de presencialidade, uma presencialidade atemporal! Também vejo uma grande falha na elaboração de material para EaD em mídia digital. Somente indicar um livro/filme/trabalho para leitura e discussão em um chat, a meu ver, é uma forma torpe e pobre de EaD. Há a possibilidade de digitalização de quase todas as linguagens, os mídia digitais são uma síntese, em termos de linguagem. Por que não se digitalizam conteúdos, sejam filmes, músicas, animações, textos e todos são disponibilizados juntos? A maioria dos cursos que fiz e faço, ainda se prendem, muito, a linguagem escrita. Esquecendo-se das outras, ou, pior, somente "indicando" material a ser pesquisado em outros meios. mas se me é difícil conseguir o material escrito, por que "diabos" seria fácil ou simples conseguir filmes, vídeos, etc? Um curso em EaD em mídia digital bem montado precisa, antes de tudo, compreender as características dessa mídia em ser multimidiática, ou seja, todas as linguagens são possíveis. Portanto, dependendo do objetivo de cada projeto, esta ou aquela linguagem (som, vídeo, texto...) se adequa melhor. Muitos defendem que, por ser uma atividade quase "isolada" os alunos procuram a EaD já motivados (como era meu caso ao aprender HTML), mas mesmo assim, as características negativas do processo (sim, há características negativas, computador não é "perfeito", como nenhum modelo o é), como dificuldade em ler textos em monitores, variáveis dimensões dos mesmos (que muitas vezes impedem uma total visualização de um conteúdo formatado para um modelo fixo), e outras tantas, "desmotivam" o aluno. 'Paradas' obrigatórias como "leia o livros tal", fazem também este papel. Por que o "leia o livro" não é pensado como um link hipertextual? Tem-se essa possibilidade técnica, não tem-se? Uma questão importante aparece aqui: Mas livros tem direitos autorais protegidos. Concordo, mas, se um curso é pensado TAMBÉM para atender alunos distantes, será que estes alunos encontrarão estes livros para adquirir em suas cidades? Não seria mais inteligente até, organizar um material de um curso contando com esse fato e produzir material devidamente licenciado pelos autores? O licenciamento de conteúdo pode ser pago ou somente permitido, depende isso de outras questões, econômico-financeiras que devem ser tratadas e ponderadas junto aos autores e/ou editores do material, mas é uma questão a ser pensada. E mesmo se usar um livro específico, o envio deste aos alunos deve ser pensado dentro da metodologia proposta no curso e não um "vire-se" como vejo acontecer na maioria dos cursos. Uma outra questão a pensar: Se o aluno está motivado a aprender "sozinho" e se já tivesse o livro em mãos, por que motivo faria meu curso? Se só o que vou fazer é dizer a ele "leia o livro"? Enfim, muitos professores e entidades ainda estão presos a forma tradicional de "sala de aula" e com a figura do professor "Todo-Poderoso" que dá ordens e estas são cumpridas por um "aluno-anta" (Ok, o termo é pejorativo mesmo, mas é assim que muitos professores tratam seus alunos!) que não saberia, sozinho, fazê-las... Não compreendem que a interatividade proporcionada por esse novo mídia pede uma atitude muito mais profunda que simplesmente 'indicar uma leitura' a um aluno ou grupo de alunos. Há cursos inteiros baseados somente nisso! Em uma relação impositiva de 'saberes' a serem adquiridos pelos alunos, sem levar em consideração a interatividade, necessária ao desenvolvimento de qualquer relação de aprendizagem e mesmo a aprendizagem colaborativa propiciada também pela interatividade. Como professora, em cursos e/ou aulas em EaD, minha experiência mostra que mesmo auto-motivados os alunos precisam de um incentivo extra nesta forma de aprendizado. Inseguranças e desconhecimentos da ferramenta (Internet e suas derivadas) e com o equipamento (computador, softwares, plugins para linguagens específicas, etc..) são, na maioria das vezes o principal entrave dos cursos. Mas também, como já disse, a imposição de horários fixos para acesso ao material/conteúdo gera grande insatisfação. Em meus cursos/aulas procuro ter uma dedicação quase integral de tempo para minimizar este problema. Mesmo assim, vejo uma barreira, que é a ignorância (no sentido de ignorar mesmo) relativa a modos e processos digitais que me preocupa. Antes mesmo de saber usar a máquina o aluno é obrigado a usá-la para um fim específico: aprender através dela. Ou seja, é um duplo aprendizado que na maioria das vezes não tem resultados satisfatórios, nem do aprendizado técnico do modo de operação nem do conteúdo. Como resolver isto? Cada curso pensado para Web deve, antes de apresentar o conteúdo, seja ele qual for, apresentar o modo como esse conteúdo será tratado, as ferramentas que serão utilizadas e, principalmente, ter certeza de que todos os envolvidos no processo entenderam o uso destas ferramentas. Podem dizer que os ambientes educacionais fazem isso, mas discordo. Literalmente TODOS os ambientes que conheço, sem exceção, são baseados numa lógica estrutural de acesso a informação que faz sentido somente a iniciados em informática. Absolutamente NENHUM deles se mostra amigável aos realmente iniciantes, só que nenhum deles esclarece isso... Todos se colocam como tendo "interfaces amigáveis". Sim, claro, e a pessoa que não sabe o que é "interface'? Será que para esta será amigável? Toda a estrutura hipertextual é realmente muito fácil de entender e usar, por ser semelhante ao pensamento humano, como vários filósofos da educação e comunicação mostram, mas desde que explicadas. E, outro problema, embora a lógica hipertextual seja conhecida dos humanos, por ser a de seu pensamento, a estrutura da informação apoiada nessa lógica deve se a estrutura do pensamento do aluno e não a do professor. E como fazer isto? É exatamente o "pulo do gato" na EaD, é o que todos nós, envolvidos, estamos pesquisando. Desenvolvi uma proposta de metodologia de desenvolvimento de material para EaD, que foi publicada no portal educacional EdukBr (http://www.edukbr.com.br/portal.asp - clicar em "colunas do portal", depois em "artigos", procurar: Jurema Sampaio). Não é nem pretende ser uma "lei", mas sim uma orientação, mesmo que inicial, dos fatores que, suponho, devem ser levados em conta no desenvolvimento de material para EaD web-based. O modelo pôde ser visto, também, em como material do Curso Piloto - Desenvolvimento de Material para EaD - Teleduc - NIED - Unicamp, aplicado em junho de 2001. Espero que seja útil e, caso você queira discuti-la comigo, escreva-me! Meu endereço: ju@jurema-sampaio.pro.br, aguardo seu comentário!
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