Ponto de Vista

ou

Balanço pessoal de fim de milênio

ou ainda

Estava de bode

ou...

Jurema L. F. Sampaio

Minha historia de vida não tem nada de diferente da história de vida de toda uma geração que nasceu e cresceu sob o domínio de uma ditadura militar, mas tem uma coisa que difere da maioria das pessoas que passaram por esse processo... Eu estava do “lado de lá” da coisa. Eu e todos os meus amiguinhos de infância, que vivíamos em vilas militares e íamos para escola acompanhados de soldados e achando, na ingenuidade infantil, que tudo era absolutamente normal. Bom, aos 8 anos de idade, tendo tido apenas essa realidade de vida, não se tem muitas chances de questionar. Aliás, questionar o que? Percebem que não houve perdas somente de um lado?

Meu pai é militar. Um brilhante oficial do exército brasileiro, com diversas condecorações e com 40 anos a serviço da pátria. Hoje, coronel da reserva, é o super querido avô de Caco, Nani, Xixo e Amandinha. Ao longo de todo esse tempo defendeu seus ideais e é, ainda hoje, uma das pessoas mais coerentes que eu conheço. Não concordo com a maioria de seus pontos de vista, o que já nos rendeu grandes embates familiares. Imagine um militar, do exército, ter uma filha artista plástica, meio hippie, com idéias “estanhas”, segundo ele, sobre família, sexo, liberdade de expressão e outros temas um tanto polêmicos? E some ainda, que esse oficial do exército brasileiro é do tipo “Caxias”, para quem o regulamento rege suas ações? Não é exatamente a situação mais cômoda do mundo... Conflitos eram e são, ainda, relativamente freqüentes, embora hoje em dia eu esteja mais bem "ligth" na defesa de meus ideais do que era quando tinha entre 15 e 18 anos. 

Mas estou aqui, escrevendo isso, não para falar de política, ideologia ou mesmo história, eu queria falar de nós. Uma geração inteirinha, de gente que sente, chora, ri, casa, se separa, tem filhos, vai ao cinema e ouve música. Sim, música reflete idéias e pontos de vista e ao mesmo tempo influencia as pessoas.

Gosto de música. Mas, independente de gostar de música, gosto de letras de músicas. Gosto do que elas dizem ou tentam dizer, gosto da poesia, gosto das palavras. Isso explica um pouco por que, embora eu fale inglês corretamente, prefira músicas em português. Acho um pouco estranho, as vezes, expressar sentimentos em outro idioma. Junto ainda a informação extra, quase essencial, para melhor compreensão do que tento dizer: gosto de rock. Rock brasileiro, escrito, composto e cantado em português. Minha banda preferida? Legião Urbana. Começamos aqui, então, nosso "papo". Letras de músicas, de bandas populares de rock, em geral retratam a realidade social de seu tempo. Não é diferente com o Legião Urbana, com um “agravante”, o talento ímpar de Renato Russo para, mesmo fazendo protesto, ser capaz de uma força poética tamanha que emocionou e ainda emociona uma geração inteira, angariando para sua legião uma infindável quantidade de jovens que fizeram e fazem ainda, suas as palavras do poeta.

Neste trecho de música - “Ah, bondade sua me explicar, com tanta determinação, exatamente o que eu sinto, como vejo, como sou, eu realmente não sabia que eu pensava assim.” - traçado com uma ironia, também típica das letras de Renato, fica claro um "protesto" dos jovens, quanto ao posicionamento de pessoas que, se pondo em um grau de superioridade, tentam explicar e “traduzir” o pensamento e sentimento deles sem, no entanto, estarem realmente ligadas a sua realidade. 

As letras de Renato são ácidas, irônicas, românticas, críticas, muitas vezes duras, mas cheias de sentimento. As músicas do Legião Urbana são hinos de uma geração. Recentemente me perguntaram o que significou a Legião na minha vida, eu respondi, meio de brincadeira que “A Legião é a trilha sonora da minha vida!” Nesta frase, eu sintetizo o que realmente penso e sinto sobre a banda. Foi, até hoje, banda que sempre, em todos os momentos, teve uma música que dizia o que eu queria dizer, caso tivesse talento para a poesia. Adotei uma frase musical como lema de minha vida, faz algum tempo: "Quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre, é coisa muito séria." Acredito, mesmo, nisso e sempre procuro pensar, por mim mesma, analisando fatos, opiniões e tudo que vejo, para depois juntar tudo e saber o que de fato eu penso, no que acredito e o que defendo.

Apesar do meu "jeitão" despachado, da minha maneira de rir de tudo e levar as coisas "na boa", sou, ao mesmo tempo, um tanto fechada, crítica ao extremo (começando por mim mesma) e penso muito (Pasmem, não sou só uma carinha bonitinha...). "Trabalho" essas coisas na minha cabeça de uma forma que eu sempre achei muito minha, muito particular, mas de uns tempos para cá, comecei a perceber, por conversas com amigos, principalmente, que as coisas são semelhantes para quase todos da mesma idade, da mesma geração. Um tanto mais fortes em "filhos de milicos", como eu, mas presentes na maioria dos "jovens" de 30 e poucos anos... Jovens que, mesmo não tendo mais a idade cronológica de jovens, tem ainda a juventude na alma e na forma de encarar a vida. Mas todos nós temos essa minha impressão de que só a gente pensa assim. E sabe o que eu tenho constatado? Não fomos ensinados a pensar! Mesmo assim, a gente pensa! Só que, as vezes, não sabe bem o que fazer com isso... 

Defendo, veementemente  (e esse sempre foi um dos motivos de atrito com meu pai), que a revolução de 64, foi uma das revoluções militares, de toda a história, de maior sucesso! Por que? Acabou com a educação de um país inteiro: o nosso. Uma geração inteira deixou de pensar, acreditando numa utopia de um "país do futuro", um "país que vai para frente", composto de jovens, eternos jovens... 

Não necessariamente por causa da revolução, mas junto com as conseqüências dela, veio a "lei de Gerson", onde o que importava era "levar vantagem em tudo, certo?", que, somado a um não-pensar coletivo, a uma falta de capacidade de análise crítica e agravada pela falta de informação, provocada por uma educação nivelada por baixo onde, afirmo novamente, deixou-se de ensinar os alunos a pensar e o que passou a valer eram os "números" oficiais que "comprovavam" a "eficiência" do modelo educacional imposto pelo regime militar. Essa mesma "lei" encontrou terreno fértil para se proliferar, passando por cima de valores éticos, morais, de cidadania até, mesmo porque, não pensando, não se aprende nada, gerando esse monstro que é a nossa sociedade moderna.

Não sou tão radical a ponto de afirmar que tudo é "culpa" da revolução ou dos militares, aliás, no meu entender, todo radicalismo é nocivo, bem como, parafraseando Oswaldo Montenegro, "nunca vi um imbecil hesitar", mas acredito que toda forma de organização social imposta, sem ter sido pensada coletivamente, discutida, que tenha sido decidida sem consenso, tende a ser uma forma "torta"  de sociedade, onde, muito mais facilmente, se encontrarão erros e descaminhos.

A coisa se torna tão arraigada, que até mesmo pessoas que combatiam e eram contra a revolução, hoje em dia, estando com o poder nas mãos, agem da mesma forma!

Um exemplo? Nosso presidente, Sr. Fernando Henrique Cardoso, que, durante os anos "negros"  da revolução, foi ativo militante político (e de quem sempre fui admiradora das teorias e pontos de vista), age de forma autoritária e desrespeitosa, negando, com seus atos, toda teoria defendida ao longo dos anos. Analisemos um fato: desde que assumiu o poder de chefe do país, o presidente "proibiu"  os militares de comemorarem, seja de que forma for, a revolução de 64. Não acho que a sociedade devesse ser obrigada a prestigiar a comemoração, muito menos que se devesse fazer da data um feriado ou algo semelhante, mas proibir algo a alguém é, no mínimo, repugnante! Mais ainda se, sabendo e se valendo da informação de que os militares devem obediência ao presidente da república, usa isso para fazer valer sua vontade! A atitude é, em análise simples, idêntica a dos mesmos militares que se achavam no direito de escolher o que podia ou não ser dito e feito pela população em geral!

Quero que fique bem claro: não defendo os militares, nem defendo a revolução. Mas ela deixa de existir, de ser fato histórico e mesmo de ser uma conquista militar, porque o presidente proíbe a comemoração dos militares?

Comparando: Se meu chefe não gosta de determinado time de futebol, de quem eu sou torcedora, tem o direito de me proibir de comemorar uma vitória do meu time, em minha casa? Do que chamaríamos isso? Autoritarismo? Revanchismo? Estaríamos voltando ao "dente-por-dente"  da lei de talião? Cadê a democracia? Cadê a liberdade de expressão? Não houve uma anistia? Anistia essa, que propiciou ao mesmo Sr. Fernando Henrique Cardoso a possibilidade de se eleger presidente? Ao que me lembro, essa anistia era para ser ampla, total e irrestrita, não? Então, o que dá ao Sr. Presidente o direito de proibir algo assim aos militares? Punir os excessos dos militares, a tortura, os crimes cometidos, concordo plenamente, é obrigação até, e há leis para isso. Mas cercear direitos, de qualquer pessoa, é agir tal e qual aos que se criticava.

Uma comparação mais séria: É fato o holocausto dos judeus na Segunda guerra mundial. E, do mesmo modo, foi errado, hediondo, repugnante e devem ser punidos os criminosos que tiveram responsabilidade pelas atrocidades cometidas. Mas, seria certo os judeus agora, que detém poder financeiro, decidirem que alemães devem ser exterminados ou ter seus direitos suspensos por isso? Definitivamente isso me envergonha, sendo atitude do homem que é o representante do meu país.

A mim me parece algo como picuinhas de crianças, quando uma determinada criança é a dona da bola, é ela quem manda na brincadeira.... Da mesma forma discordo de posições radicais de professores-pesquisadores de universidades, arraigados a essa forma de pensar e agir, que cortam possibilidades de pesquisa de alunos pelo simples motivos de seus temas de pesquisa diferirem de suas propostas pessoais; discordo de médicos que se colocam como semi-deuses e tratam seus pacientes sem compaixão e, principalmente, sem respeito por suas dores e discordo de pessoas que se julguem superiores a outras, seja por que motivo for. Será que evoluímos mesmo?

Volto as letras de músicas. Não posso deixar de aplaudir, repetidas vezes, e sempre, a Renato Russo, pelos versos: “Ah, bondade sua me explicar, com tanta determinação, exatamente o que eu sinto, como vejo, como sou, eu realmente não sabia que eu pensava assim.”, nem posso deixar de "agradecer" a "bondade"  do Sr. Presidente e de todas as pessoas que agem desta forma "superior" ao tentar "explicar" seus atos... 

Tenho uma coisa ainda para dizer. Me desculpem a ousadia até, mas eu penso por mim mesma, obrigada e, ainda acredito que "quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre, é coisa muito séria". 

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